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Monólogo de uma boca misteriosa



O inferno é feito de gente!

Um dia, uma boca falando línguas estranhas, deixou o vento trazer esta mensagem.

Fica em uma imensa catedral gótica, mil vezes maior que a constelação de Órion, nos confins do universo, guardado por uma serpente hermafrodita, de imensos olhos de rubis!

Nunca ouvi um grito que viesse perturbar minha paciência. Lá, habita o tédio, a amargura e a omissão!

Um andarilho de cabeça enferrujada - Falou novamente a boca - que nunca chegava a lugar algum, me confessou que o tédio é o filho mais angustiado da casa, e que ele já havia percorrido uma infinidade de lugares, procurando esquecer a própria identidade. Disse, que o homem atormentado é o que mais percorre os caminhos do mundo, para distrair o sofrimento que lhe corrói a alma, fugir de si próprio, dos seus fantasmas.
O tédio leva o homem procurar as guerras, o reconhecimento pelo poder, a refugiar-se na bebida, nas drogas, na prostituição.

No omisso, vi depositado a covardia, o desprezo pela verdade, o bem comum. O omisso é o pilar mais desprezível deste inferno.
Vê a amargura que me consome, o meu olhar incerto, a falta de repouso?
Depois, o andarilho se deixou levar por uma corrente de vento, completou a boca misteriosa!

Certa vez - voltou a boca - ouvi o anjo mais belo conversar com deus, e disse: Senhor, o que fazer com estas almas sonolentas que fizeste, para habitarem o paraíso?
Vi livros sagrados de todos os cantos da terra, manchados de sangue, presenciei a raiva que enlouquece estas criaturas pelo mau uso da fé. Os homens odeiam em teu santo nome!

Eles, emporcalham a tua criação, mistificam o sagrado ato da existência, o saber e direcionado para a destruição das maravilhas que criaste, pisoteiam as dadivas das tuas mãos.
Eles fomentam a intriga entre tu e eu!

Humildemente, sempre venho me curvar a teus pés e te louvar com a alma repleta dos sentimentos mais nobres.
Não me julgues pela maldade dos homens, sou a vitima mais atormentada por esta espécie rasa, que nunca se orientou pela gratidão!
O coração do homem é que dissemina o mal na terra!

Eles, quase sempre por empáfia ou arrogância, brincam de enganar-me,  um anjo simplório , atribuindo-me os males do mundo. É fácil atribuir aos outros os seus defeitos e a sua ruina!

Precisas apaziguar a fera que habita em cada pessoa, os seus vícios, suas vaidades e a inveja, estes combustíveis que sustentam o fogo que consome as almas.

Sempre fomos traídos pelos homens. O grande amor, nos torna vulneráveis a esta espécie!

Já que me criaste, peço humildemente que me extermines para sempre. Prefiro a não existência a esta, cheia de infernos!
O meu amor pelos homens me aproxima mais de ti e deste sofrimento sem fim. Preciso descansar!
Quando haverá um dia de paz na terra? Não existe alegria nos pássaros as flores não tem mais perfume. Tudo está morrendo. O prazer já não tem sentido!
Somente quando os homens forem bons, herdaremos os bens terrenos!

O senhor olhou ternamente nos olhos do demônio , e se afastou para meditar longamente!

Quase sempre, o demônio vem caminhar no que restou dos jardins da terra. Lavar o rosto com agua fresca e respirar um pouco de felicidade. O demônio também precisa ser feliz!

De bom grado, e de alma limpa, eu condeno o homem, e perdoo o demônio, per saecula saeculorum, me disse a boca, em canto Ambrosiano!










Jose Balbino de Oliveira
Enviado por Jose Balbino de Oliveira em 13/08/2015


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