macacos e colibris

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O sino da Igreja Matriz
No tempo do Frei Jaime Maria Lagostela, quando eu vivia
nas entranhas dos testículos do meu pai, me equilibrando
e me agarrando toda noite, às vezes nas madrugadas - para
não ser jogado fora às pressas - visto que inteligente, eu
me segurava e me preparava fazendo exercicios físicos - me
fortalecendo para ganhar peso e impulso - para sair arrombando tudo, e chegar em primeiro lugar como cheguei.

De dia eu ficava calmo, sereno, ouvindo minhas primas falando por "Talian", principalmente no domingo, que era o
dia de missa na Igreja matriz.

Me lembro do domingo em que colocaram o sino novo, pesado,
definitivo!

Depois da missa das 7, a cidade toda foi ajudar a colocar
o sino grande.

Ouví a voz do Frei Jaime no comando; reconhecí os gritos
do Jacintim leiloeiro, e do Zé Lobo de Vasconcelos.
Padre André estava "inçado", parecia uma galinha choca sem
ninho, brigava com todo mundo: Coiceava o vento!

Que gritaria, que festa, e que alegria eu percebia!

Juntaram vinte cordas das grossas de sizal, trançaram e fizeram um cordão de cento e cincoenta metros.

Zé Madalena, que tinha preparado o lugar para o sino, com
madeiras de lei e trilhos de linha férrea, orientava a posição, e tudo certo e nos conformes mandou puxar a corda:

"O sino ia e não ia. Ia e não ia. Ia e não foi".

Frei Pio queria que viesse um trator da Italia para puxar a
corda.
Fiurim receitou uma duzia de mulas do plantel do Afonsão, e
as juntas de boi do Ambrósio Bonino e Antonio Guerra, queria os cabos de aço das barcas, amarrada no trem, para
puxar a corda e levantar o sino.

O serviço de "alto falante" tocava valsas, para alegrar a
cidade e dar moral!

"Quinzinho e dona Maria estavam bem perto de mim e conversavam com Geraldo Simões e dona Ernestina: Era comadre prá lá, compadre prá cá.
Sentí um cheiro inesquecivel de pó de arroz "Cachemire Bouquet"; era dona Maria: Inconfundível!

Walcir Fagundes, birrento, brigava com seu Valdemar porque
queria chupar um picolé. Era birrento o Walcir! Tive vontade de dar um chute no trazeiro dele, mas ainda não tinha um pé.

Num canto só se ouvia a mentirada: Bastião "Boca de Fôgo",
Juarez da "Dona Zilda" e o Plinio "coração de Carneiro".
Era uma gargalhada só!

Marreco estava por perto: Não falava... quieto... deduzí
pelo cheiro do café verde: Furava saco no IBC. Classificava!

Sabia do "Juju" pelo cheiro da "Aqua Velva". Era barbeiro
dos bons!

As professoras Bernadete, Áurea e Marlene estavam muito ansiosas, rezavam o terço, e mesmo nervosas irradiavam ternura!

Dona Clemência, Coletta e Tia Ritinha, conversavam animadamente. (trezentos anos de historias, reunidos!)

Zé fofinha vinha com um trombone e rangendo o sapato novo.
Tinha colocado uma "vista" de ouro no dente, com o Humberto
Bonisson. Decifrei porque alguem gritou: Aí Fofinha, tá comendo queijo!
Quase afoguei de rir, dentro do ôvo do meu pai, imaginando
o Fofinha comendo queijo!.

Euclides Candido do Vale ria gostosamente. Precisava a gargalhada? Sabia que era ele pelo cheiro do "Liberty Ovais". Era perfumado aquele cigarro!

Encostado em mim havia um par de lentes que dava forma ao
óculos que o nariz calejado do "Tantana" suportava. Tinha
um sorriso sempre à esquerda, falava encabulado, e estava
mais desajeitado que mudança de pobre!

Julio Scarabelo brigava para arranjar um angulo para uma bela fotografia: Encontrou Luzia!

"Atraz, Há três, atrizes, atrozes! Era o Aloisio Munhão falando em "trocadilho". Tinha chegado de Ouro Fino, Metido!!!!"

A Congregação Mariana compareceu em massa. Professor Constantino comandava a moçada: Conhecí pela mansidão da fala!

Até os membros da Igreja Presbiteriana fizeram um mutirão,
e foram ajudar.
Era a cidade toda participando para a gloria de Deus!

"O sino ia e não ia. Ia e não ia. Até que foi! E ficou amarrado lá em cima. e houve palmas e louvores!"

Às ll,39 minutos (meu pai disse em voz alta) o sino começou
a badalar, enchendo a cidade de sons. Parecia uma fanfarra,
e houve palmas e foguetórios!.

E no serviço de Alto falante, um glorioso "te Deum".

Depois a Lyra desfilou pela cidade. Dobrava e redobrava. Tocou como nunca se ouviu!

"Uma vaca, dois porcos, dez cabritos, cem galinhas, farinha
e muito ôvo para a farofa compor o churrasco.

Cachaça do Bernardo e vinho da Fabrica de bebidas "Cacique"
completavam o banquete.


Naquela tarde toda a cidade se enfureceu com uma santa alegria!.



       À minha cidade de Interior, a de antigamente.

Jose Balbino de Oliveira
Enviado por Jose Balbino de Oliveira em 23/12/2006


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