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" Schipa - O Divino "


Fecho os olhos e ouço, e sinto que a musica cria asas e sai voando na voz de Tito Schipa.
Nunca ouví ninguem cantar tão belo como ele. Quando ele canta, a Itália inteira entra dentro do meu coração.
E como a Itália é prodigiosa! Seus monumentos suas artes: Senhora dos monumentos e soberana mãe das artes.

Conheço todos os seus tenores de todas as épocas, posso identificar cada voz daquelas que eu pude ouvir.
Embora eu sinta em Beniamino Gigli a perfeição, aquele que reunia todos os predicados de tenor, o que aprimorava qualquer ária, nunca ninguem cantou mais belo que Tito Schipa. Era ele o cantor, mas a musica era a Itália.

Nem era preciso conhecê-la, bastava abrir o coração que a Itália se encarregava do contentamento. Era ela que estava cantando na voz de Tito Schipa.
É até dificil imaginar um sem o outro: São irmãos divinos da mais bela de todas as artes.

Apago a luz, fecho os olhos deito na rede e começo a ouvir o bom e velho vinil, com musicas gravadas nos anos trinta e quarenta, e nada mais me perturba a não ser tentar explicar até que ponto o ser humano pode se exercitar até chegar à perfeição, ou se é a perfeição, ja exercitada ao máximo, que vem encontrar o elemento exato, a ferramenta justa para se manifestar ao mundo?

Sempre observei que não basta cantar, ter uma bela voz, possuir a tecnica necessária para a execução do canto. Nada disso chegaria à perfeição, se não houvesse por trás o sentimento, e sempre ví na oratória, no teatro, nas artes cênicas, por trás, a elevação e a santidade.
Chego a acreditar que as grandes artistas são tambem, santos grandiosos.

E o que é a santidade senão uma grande elevação?
Existe uma arte que nos eleve mais alto que uma doce canção?

Tito esteve em todos lugares levando o encantamento da sua musica. Cantou em varias linguas e enriqueceu outros cantos, outras maneiras de cantar: O tango foi uma delas.
Mas só a Itália tinha o sentimento e o idioma perfeito para sua arte despertar e se imortalizar.

Esqueço minhas indagações e me deixo levar pela musica de Schipa.

Aquí na sala alguem canta. É como se ele tivesse dando um recital único, para minha elevação.
A musica que ouço, é a musica tal qual ele gravou. Sem nenhum recurso dos nossos dias, sem artimanha. Sem comprometimento.

Dalí se pode extrair a beleza pura do cantor e da orquestra, e a graciosidade de toda uma época; os momentos de mais puro lirismo e os instantes de dramaticidade que a canção exige.

E daquele velho e bom vinil, vem as ondulações perfeitas, o som exato, e o sentimento único que a Itália traduz, no canto de um filho muito amado, para mostrar e doar os seus mistérios generosos de grande mãe do mundo.



Jose Balbino de Oliveira
Enviado por Jose Balbino de Oliveira em 02/07/2007
Alterado em 05/12/2007
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