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Olhos de enxergar poesia


Nasci com olhos de enxergar poesia!
Tive o privilégio de observar o ser humano com seus mínimos disfarces, ajustando contas com a vida.
Vi a lírica dos pistoleiros: Mãos tremulas, olhos desconfiados, tosse nervosa, o andar cismado. O silencio dos que escrevem a morte, é cheio de poesia.
Belos poemas são escritos com sangue!

A esperança no cascalho, onde se esconde a turmalina, é mais que o lucro. É sonho que se sonha de olhos abertos, na cegueira do túnel. É delírio, é quase uma imortalidade!

Nenhum sorriso é tão elegante, quanto o do bêbado  pobre, seu modo de interpretar a alegria, o fascínio pela vida alheia, os comentários burlescos sobre o cotidiano, a mimica do olhar, a simpatia fulgurante como arma, para filar um trago.
Este bêbado é uma imensa comedia. Um verso pronto e acabado!

Vi pistolas adornadas com ouro, bacamartes boca-de-sino, que vomitavam chumbo e cravos de ferradura, o punhal cravejado de brilhantes, pescadores de pérolas. A poesia em um poeta sem versos!

Quanta alegria eu vi no olhar da prostituta, e tristeza no da moça virgem, a amargura do homem traído, o sino da matriz  anunciando um funeral, o espetáculo do arco íris.
A preocupação solene da mulher que acaba de parir!

Na elegância do Rio Doce em plena primavera, banhando as Capivaras.
A dança da alegria para o plantio do alho, vento e chuva brincando com o milharal.
As mangueiras, orgulhosas, mostrando seus frutos.
A festa dos sanhaços na goiabeira.
A simplicidade do perfume, no galho de manjerona.
O cafezal cheio de flores, como uma noiva que sonha com o altar.

As missas solenes.
As procissões para o chamamento da chuva.
Moças em festa no bailado das congadas.
Lavadeiras, pendurando roupas coloridas, como se escrevessem alegorias para o carnaval.

Vi um soneto escrito no corpo de um suicida, que tinha uma perna de pau. A corda, firme no pescoço, parecia um ponto de interrogação. Era um soneto feito de deselegância e dor!

Até na chama da floresta incendiada, no desespero dos seus filhos, vi muita poesia.
Como um pintor desenhando chamas, horrores, destruição, com os meus olhos de enxergar poesia, vi este espetáculo, grandioso e trágico!




Jose Balbino de Oliveira
Enviado por Jose Balbino de Oliveira em 10/09/2015
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