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O alecrim d'Itália
Morreu o velho pé de alecrim que sempre esteve com a minha familia.
Meu avô me disse que veio da Itália o primeiro pé, em um navio, cercado de muito carinho.
Quando plantado, por ser valente ficou forte e se tornou belo, para perfumar a varanda e o chá para fortalecer o coração.

Depois deu filhos, e os filhos foram embora em companhia dos meus avòs para as Gerais, e depois voltou sempre em companhia da nossa família.

Minha mãe sempre me falava sobre aquele alecrim, como se ele fosse um tesouro da familia. Era como se ele só aceitasse viver entre nós.
Costumava me pedir para que cuidasse dele, e sempre o mantivesse vivo. Era como se acreditasse que da prosperidade dele, dependesse a nossa.

Sempre a via acariciando-o à noite, e depois levando as mãos nas narinas, para aspirar o perfume.
Não havia necessidade de amassá-lo, bastava uma carícia e ele retribuía com seu doce aroma.

Muitas mudas foram dadas. Pela beleza e colorido de suas folhas muito verdes, intensas, e fragrância acentuada, e mesmo assim não lembro que alguem tenha extraído dele um pé vistoso: Não me lembro!

Tenho a conciência tranquila que dei muitas mudas pegas, prontas para irem para a terra. Levei para o interior onde se cuida com carinho da alfazema e da malva de cheiro, e mesmo assim,  sua descendência quís permanecer só entre nós.

Há algum tempo atrás, eu tinha dois pés na minha varanda, e duas mudas pedindo para serem plantadas. Um pé velho e outro moço, e duas mudinhas sorridentes.

Dei-as para um amigo para ver se reproduziam, e fiquei muito feliz quando ele me disse que uma tinha vingado e se tornou belíssima.
Pedí que ele fizesse e espalhasse muitas mudas, para manter a planta.

Quando não esperava aconteceu uma semana de muita chuva e vento sul, e a saúde das plantas ficaram abaladas.
Descobrí uma espécie de ácaro quase invisível que se alojara no tronco, e foi fatal!

Retirei alguns galhos do pé ainda com vida e replantei. Estavam fraquinhas, e novamente a chuva e o vento se encarregaram de me angustiarem: As mudas não ganharam viço e secaram.

Recorrí ao amigo que havia levado minhas mudas, e ele estava reformando a casa, e o lugar da planta havia sido invadido, e lá se foi a minha esperança.

Morreu nas minhas mãos o alecrim dos meus bisavós: O alecrim d'Itália.

Sou avesso a superstições, mas algumas coisas andaram acontecendo de errado na minha vida. Comecei a atribuir à perda do alecrim.

Fui na feira onde compro manjericão, e a mulher das flores, a minha ultima esperança, tambem tinha perdido a planta do alecrim d'Itália.
Apesar de encantada por ele, não conseguiu dar-lhe vida.

Na semana que passou, resolví cortar alguns galhos e limpar o jardim de frente da nossa casa, só com plantas maiores, e notei um vaso de orquídeas terrestres com a folhagem crescendo e se tornando exuberante.

Fui verificar de perto e retirar algumas folhas secas, e para maior felicidade, lá estava o meu pezinho de alecrim, escondidinho, mas radiante como uma criancinha travessa.
Pareceu me abraçar e eu a ele. Acariciei-o com a maior alegria, com o carinho que se dá ao primeiro amor.
Já tinha até algumas hastes para se tornarem mudas.

Algum anjo generoso deve ter enfiado um galhinho no meio das orquídeas, e ele se apegou à vida, gostou do mundo e quís embelezar o planeta e dar cheiro doce ao vento.

Levei para a varanda, coloquei esterco e até plantei uma mudinha que já dá sinais que veio para ficar.

E recomeçar de novo a historia dos meus bisavôs e dos meus.



Jose Balbino de Oliveira
Enviado por Jose Balbino de Oliveira em 05/06/2007
Alterado em 05/06/2007
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