macacos e colibris

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Olhando-me ao sol
Depois dos quarenta anos, passei a desprezar espelho. O que tenho nas mãos, me odeia e me deixa infeliz.
Por ser herança dos meus antepassados, eu o conservo como relíquia. Ele é que me mostra a real condição, que os anos cobram, pela estada neste mundo.

Tenho alguns cabelos brancos, minto, metade já estão tragicamente brancos. Mandei ajeitar para ficar melhor, um pouquinho.
Meu deus, como fico em desespero ao vê-los assim, conspirando contra a minha cabeça. Acho que estou envelhecendo!

Minha fronte altiva, ainda me encanta. Um pouco de orgulho e humildade, sempre fizeram parte da minha vida!

Misteriosamente, aparecem dois finíssimos fios brancos, um em cada sobrancelha. Não os vejo à sombra. Percebo agora à luz do sol. Vou arrancá-los com urgência!

Meus olhos parecem duas jabuticabas maduras. Ainda têm brilho e se encantam às coisas belas da vida. Hoje porem, esqueceram os ares sonhadores: Analisar-se às vezes, é um ato de heroísmo!

O nariz pouco mudou. A cartilagem é um elemento milagroso. O rosto, deveria ser de cartilagem pura. Pena que a natureza esqueceu este detalhe.

Graciosas orelhas, emolduram cada lado do meu rosto. Parecem feitas de porcelana rara e moldadas por mãos de jovens Chinesas, em dias cordiais.

Preciso engordar um pouco para me livrar do "bigode chinês" , e emagrecer outro tanto para me livrar da "papada", ou a cara de Buldogue de Dom João Sexto. Como conciliar? Dilema! Encontro-me invocando desesperadamente o gênio: Pitanguy! Pitanguy!!!! Pitanguy !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Tenho uma mancha na maçã esquerda do rosto. Quando alguma coisa estranha acontece no mecanismo do meu corpo, ela fica zangada e se transforma em uma verruga. Trato-a com carinho, pomadinhas, e ela vai embora. Gosta de se mostrar na minha face.
Espero conservar esta amizade respeitosa, enquanto estivermos por aqui.

Ensaio um sorriso. Ainda não tenho marcas nos lábios. Os dentes estão meio amarelados. Nenhum sorriso chega impunemente à metade de um século.
Embora esteja precisando de alegria, não há ninguém que ilumine a minha face. Há um domingo na escadaria que não é meu!

Difícil para um homem honesto, idealizar as rugas. Chamarei isto de pós juventude, ou pós belos anos - A retirada dos tempos abundantes - O doce nos lábios - O enfrentamento cordial entre o que fui e o que sou.

Meus ombros estão firmes e fortes. O corpo precisa apanhar para ficar no lugar. Exercito-os!

Meus peitos estão também, rijos. Insistem em ser jovens e provocantes. À noite, vou apalpá-los cuidadosamente à procura de alguma anormalidade.
Preciso fazer de quando em quando um exame de mamografia, e mantê-los sempre saudáveis.

Vou parar por aqui. Não vou relatar coisas intimas. A fotografia não vai ser de corpo inteiro, felizmente!

Acho que não vou ficar bem na foto. Paciência, mando retocar!




Jose Balbino de Oliveira
Enviado por Jose Balbino de Oliveira em 26/11/2014
Alterado em 27/11/2014
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